domingo, 14 de julho de 2013

Amélia II

E eis que quando ela abre a porta do antigo Casarão da Rua Vinte, onde grandes meretrizes fizeram fama na noite da Capital, casarão esse de número 13, um número de incríveis e tenebrosos mistérios diriam os Incas, e percebe que pela primeira vez não é um dia claro que encontra, percebe que está escuro, na noite voraz e feroz, sedutora e maquiavélica, começa a desconstruir a imagem de boa Amélia que cultivou a vida inteira, andarás por vezes pensando em outras coisas, outros desejos e começa a coloca-lós em prática, em pleno vigor. Trocou a maquilagem clara, nude, por cores fortes, pesadas, negras, avermelhadas, alaranjadas e chamativas. Picotou o cabelo, pintou, tatuou, mutilou o próprio corpo, rasgou as roupas, comprou saltos maiores, decidiu ver a vida do alto. O olhar mudou, pesou, cresceu. Amélia morreu. Nasceu uma mulher forte, feliz, resistente, voraz, com ânsia de engolir o mundo. Com colares pesados e brilhantes, com anéis de força total, de sorriso sedutor, de pele fina e com a voz de uma loba a dar o bote. É essa a Amélia que construímos? Ela fez o favor de desconstruir o que não era dela, o que não era criação e manipulação do ser dela. E ser a sua verdade própria. 

Moça bonita, da pele calma, um dia acorda com novos desejos, querendo novos nuances, novos saltos.  
Por que não dava mais pra chorar, pra cair, pra fraquejar, pra manter-se na rotina. Não mendigaria amor nunca mais, não seria mais a doadora e sim a receptora, a sangue-suga. Amélia mudou, piorou, melhorou, num círculo vicioso. E agora vivia entre fumaças e copos cheios de bebidas etílicas, entre saltos e risadas, entre luzes coloridas e beijos, amassos e flashs, leis e amores, fracassos e sorrisos. Amélia é outra ou a outra é Amélia. Ela cresceu e se fez aparecer, se tornou, a alma a essa minuto já se perdeu em alguma esquina. 


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