segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Não.

“Sou feliz?”, indaguei a mim mesmo, e alguém dentro de mim respondeu: “Não”, “Por que não?”, retruquei, mas o outro ficou calado. Apurei os ouvidos e escutei a mim mesmo.

Metáfora.

Não somos um rochedo em meio das ondas, mas, antes uma baliza, fixada é verdade por sua âncora, mas que flutua com as marés e os ventos ao redor do ponto a que está presa, e que não se mantém senão cedendo.

Ausência.


Não é o poeta que fala por mim, ou a poesia. Não fala por mim o gramático ou o crítico. Não fala por mim o aparelho sobre a estante que ecoa por toda a casa vazia. Não fala por mim o tempo que vivo, as histórias que me toma pela mão e me diz, não. Não fala por mim a ilusão que houver. Não é o solitário que fala por mim, meu irmão, e não fala por mim a mulher que acaba de abrir a janela a espera dele que se embriaga no mais puro esquecimento e o palhaço prestes a adentrar o picadeiro ou o pobre homem que atravessa a rua com o jornal amassado, carregado em tintas do passado. Não fala por mim meu avô que morreu, meu amor que me esqueceu, a alegria que não me quis. Não fala por mim o meu povo infeliz que tão pouco tem para dizer com todas as letras aquilo que quase não sabe (mas vive, e como vive). Não é exatamente o inconsolável que fala por mim nem o irremediável, nem o intratável. Não fala por mim o pesadelo da noite
nem o sonho, o psicanalista não fala por mim, nem o psiquiatra com os seus remédios ou o filósofo com os seus sistemas e nem mesmo o louco com suas desrazões. Não fala por mim tu que mal me conheces, (porque isso te serviria de algum consolo?). Não fala por mim o pensamento de minha mãe e de meu pai que ainda vivos podem pensar em mim e no que faço eu enquanto estou envelhecendo. Não fala por mim o erro que cometi o acerto que por lutas mereci, nem a mais recente ilusão adquirida nos último deslumbres da vida, o que fala por mim é a minha Ausência.
(Bêbado, como sempre e com muito orgulho, 03:30 de fria manhã).

Todo mundo perde para o destino.

O destino jogava comigo, e continuei jogando. Pude ver claramente que estava sendo levado para a desgraça, mas disse a mim mesmo que estava preparado. De qualquer modo, todo mundo perde para o destino.

Ser ator.


ser ator é conviver com o mundo
estando fora dele
observar o tempo passar
fingindo o triste esquecimento

ser ator é abraçar o mundo
quando não se tem fé no alheio sentimento
(ainda por ternura, ainda por amor)

ser ator é decorar o texto sem sentido
roto e repetido
o texto que não fala ao coração
o texto que não consola
o texto de um autor
há muito fora de moda

ser ator é subir ao procênio sem platéia
sem riso e sem aplauso
encenando a loucura do próprio gênio
(por si, para si)

ser ator é desejar todas as almas do mundo
com suas máscaras
e dramas e comédias
e posição em cena
por desejo de tornar-se
sem jamais realmente poder vir a ser

ser ator é conviver com fantasmas
que lhe contam coisas ao longo dos atos da vida
sempre anotando tudo
sempre aclarando a memória
que acaba por se tornar outra coisa

ser ator é,
ouvir,
para não esquecer
para representar
no imaginário e fantasia
aquilo que não poderia ser a realidade
(mas é)

ser ator é ver a cortina se encerrar
para no palco se sentar
e indefinidamente aguardar
o verdadeiro espetáculo
da vida

que a de começar
que a de começar
que a de começar!

(Bêbado e louco, como poucos!)